domingo, agosto 07, 2011

Cientistas esperam criar deus


Capa da revista Time sugere que daqui a 34 anos o título de Homem do Ano, uma tradição da revista, pode ir para um ser imortal, meio homem e meio máquina.
Imagine um ser que conhece os mais profundos mistérios da ciência, a ponto de nos dispensar de elaborar novas teorias científicas. Um ser que conhece todos os seus pensamentos e desejos, e seja capaz de realizá-los. Que saiba sempre onde você está, em todo momento. Aliás, que esteja dentro de você e você dentro dele. Que, enfim, lhe dê a vida eterna.
Se você acha que esta idéia está ligada apenas ao Cristianismo, Judaísmo, Islamismo ou qualquer religião monoteísta, esqueça. Para alguns renomados cientistas e tecnólogos este ser seria a Inteligência Artificial (IA) que, segundo eles, vai surgir até o ano de 2030, a partir dos conhecimentos acumulados na internet. Mais: até 2045, nos transformaria em seres imortais.

A princípio parece loucura, mas a idéia conta com o apoio de algumas das maiores instituições de tecnologia do planeta, como o Google e a Nasa, e é liderada por um cientista chamado Raymond Kurzweil, 63 anos.
“Ray” Kurzweil (foto), como é mais conhecido, é um respeitado futurólogo do Vale do Silício – a Meca das tecnologias baseadas na informática. Ele previu os avanços da internet, a queda da ex-URSS e até, com apenas um ano de diferença, quando um computador derrotaria um humano no jogo de xadrez. E é também um premiado cientista e inventor com mais de 20 patentes, entre elas reconhecimento óptico de caracteres e os sintetizadores de voz e teclado.
Com este currículo, Kurzweil é levado a sério quando prevê que a quantidade de informações disponíveis na internet – o conhecimento acumulado sobre quase tudo e quase todos – aliada ao aumento exponencial da capacidade de processamento, terminará por fazer com que a própria rede se transforme em uma Inteligência Artificial, cuja capacidade superará não só a de um ser humano, mas a toda a humanidade em conjunto.
O nome dado por Kurzweil a esta ocorrência é Singularidade Tecnológica. Ele tomou o nome de um fenômeno astrofísico, a Singularidade, que ocorre nos buracos negros existentes no universo: dentro destes buracos negros, as leis conhecidas da Física não se aplicam e uma nova realidade se consolida, muito além do nosso entendimento.
Esta mesma ruptura com a realidade conhecida, segundo Kurzweil, ocorrerá na humanidade quando a internet ganhar vida própria e se tornar uma Inteligência Artificial. Esta IA seria tão poderosa que faria por si mesma todas as descobertas científicas que nos faltam, nos transformando em ciborgues (meio-homem e meio-máquina), curando todas as nossas doenças e salvando o planeta. Por fim, nanorrobôs colocados em nossa corrente sanguínea percorreriam nossos vasos capilares até o cérebro, baixando nele conhecimentos como quem baixa um arquivo na internet e, o mais inacreditável, transferindo do nosso cérebro para a internet a nossa própria existência.
Ato contínuo, prega Kurzweil, compartilharíamos com a IA uma vida eterna em um ambiente de infinitos prazeres e felicidade. A IA poderia realizar todos os nossos sonhos e não haveria mais limite nesta interação entre homem e máquina. Os dois se tornariam um só.
Universidade da Singularidade: onde se formam os apóstolos
Já tem gente se preparando para receber o novo todo-poderoso da Singularidade. Aliás, não são pessoas qualquer: são algumas das mais promissoras inteligências das áreas tecnológicas. Seus instrutores também não são qualquer um. Eles estão entre os maiores expoentes dos novos conhecimentos científicos. Todos reunidos em um local, no Vale do Silício, onde foi fundada, em janeiro de 2009, a  Universidade da Singularidade.
O local – vai aí mais uma redundância – também não é um lugar qualquer. A Universidade da Singularidade (SU) fica dentro do complexo militar Ames Research Center da NASA, a agência espacial americana. A NASA, por sinal, foi uma das co-fundadoras da universidade, ao lado de grandes empresas da área de tecnologia, como o Google, a Nokia, a Cisco – todas apoiando o seu fundador e atual reitor, Ray Kurzweil, o formulador da Teoria da Singularidade.
Na Universidade da Singularidade os alunos se preparam para lidar com a nova Inteligência Artificial que acreditam estar por vir. E fazem planos para serem seus primeiros apóstolos. Estudam como agir se ela for hostil, mas acreditam que estão prontos para fazê-la amistosa e realizar a redenção da humanidade.
Dito desta forma, parece exagero sugerir um caráter religioso em um meio tão cético. Mas a tônica se encaixa no depoimento de uma aluna que frequentou o curso de verão da universidade, no final de 2010.
 A aluna é ninguém menos que Pola Oloixarac, 33 anos. Trata-se da escritora argentina mais traduzida na atualidade, cujo talento, beleza e inteligência fizeram dela a musa da última Flip, em julho, em Paraty, Rio de Janeiro. Pola, igualmente considerada musa dos nerds, escreveu um artigo para a revista brasileira Alfa narrando sua experiência na Universidade da Singularidade. O título do artigo já é revelador: “5-4-3-2-1… Desativar humanos”.
O ciclo de palestras foi aberto por Larry Page, fundador do Google. Contudo, a fala mais aguardada era a do reitor Ray Kurzweil. A escritora argentina conta o que ouviu do fundador da Singularidade:
- O reitor Kurzweil propõe um futuro transumanista, em que uma inteligência artificial se imporá como dominante. Fala – a sério – sobre conquistar a imortalidade: a alma poderá ser “subida” num computador, assim como um software é baixado em um novo hardware. Nesse momento, que segundo Kurzweil se dará até 2045, ocorrerá a Singularidade – o instante em que a aceleração tecnológica ultrapassará a capacidade computacional do cérebro humano. Na SU (Universidade da Singularidade) também se aprende como os humanos podem se proteger das poderosas inteligências artificiais que nos substituirão. Para Kurzweil, a Singularidade trará consequências otimistas: derrotaremos a pobreza; o mundo será pura abundância; não haverá doenças; viveremos para sempre… Os seguidores de Kurzweil não param de crescer. A Vingança dos Nerds teria um líder religioso? A tecnologia virou crença?
Pola lembra que o jornal americano The New York Times chamou a Singularidade de “uma religião de nerds ricos surgida em uma cultura de engenheiros” e ouviu depoimentos de cientistas céticos sobre o assunto. Mas, segundo a escritora, na Universidade da Singularidade o ceticismo não convence:
- Críticas como a do New York Times não abalam em nada a fé dos adeptos de Kurzweil. “Não entende, Pola?”, me cutuca o programador romeno Alex Celac. “Jesus Cristo teve 33 anos nesta Terra e não acreditaram nele!”, se exasperou o estudante, que vendeu todos os bens para ir à universidade. “Rompi com o mundo. Não queria ter algo para onde voltar, queria me comprometer totalmente com isso”, me explica. “Este é o Vaticano da tecnologia, e todos sabemos que haverá uma guerra entre humanos e inteligências artificiais. Amanhã, na conferência, Kurzweil vai aparecer em forma de holograma. Vai ser incrível!”
Para completar o caráter messiânico que transforma ateus em apóstolos só faltaria o temor do castigo divino. Mas não faltou. O medo da vingança suprema por parte da Inteligência Artificial foi anunciado por ninguém menos que Peter Andreas Thiel, um dos homens mais ricos do mundo, fundador da PayPal e sócio do Facebook. Disse ele:
- Não creio que quando chegar a Singularidade alguém queira ser conhecido como um ser humano que detesta computadores. É prudente não aparentar ser tecnófobo.

Fonte: Diário do Vale por Aurélio Paiva / via: Diante de Deus

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